quarta-feira, 30 de março de 2016

ROTEIRO DE LEITURA DE IMAGEM: "AMINATA, A TAGARELA" (texto e ilustrações: Maté; editora Escarlate, 2015)

Meu último livro, que está sendo adotado por várias escolas, permite abordar com as crianças diversos temas atuais, como: 

- AUTOCONHECIMENTO,
- PAPEL DA FAMÍLIA,
- GÊNERO E DESIGUALDADE,
- TRADIÇÃO ORAL,
- RESPEITO POR OUTRAS CULTURAS

Mas para uma leitura mais aprofundada, é necessário também saber ler as imagens:

Parece óbvio, mas não é! A ilustração, também chamada de TEXTO VISUAL, não se limita a uma mera representação do conteúdo textual que ela acompanha. Ela funciona como um texto paralelo, com seu vocabulário próprio (linha, cor, forma e outros elementos da linguagem visual) que é decodificado através da LEITURA DE IMAGEM. Uma boa ilustração complementa a leitura, recriando todo um universo expressivo, podendo inclusive oferecer outras chaves para a interpretação do texto. Por isso, é preciso estar atento aos detalhes...

Apresentando 5 CHAVES PARA O ROTEIRO DE LEITURA DE IMAGEM: 

1ª CHAVE: começar pela CAPA

A  capa é a “cara “do livro e merece uma atenção especial. 
1- Perguntar ao aluno que acaba de descobrir o livro a sua primeira impressão, se existe algo curioso na mistura dos elementos (flocos de neve e algodão) e o que ele consegue imaginar a respeito da menina ali representada.
2- Após a leitura do livro, refazer a mesma pergunta ao aluno que agora vai conseguir interpretar os diversos elementos em função da história que ele já conhece.
3- Atentar aos detalhes que talvez tenham passado desapercebidos (que pássaro é aquele? E as frutas? Textura da fonte usada para o título, dinamismo visual dos elementos da capa...)

2ª CHAVE: a transformação do algodão


Capítulo após capítulo, aparecem as diversas fases de fabricação do tecido: colheita do algodão, fiação, tecelagem e finalmente a pintura com a técnica do bogolan.
Perguntar aos alunos se já viram uma plantação de algodão e/ou um tear (mecânico ou manual).

3ª CHAVE: o crocodilo



O crocodilo é um animal de forte apelo simbólico que aparece sob diversos aspectos durante a história. Pedir aos alunos para encontrar seus rastros no livro: na abertura (1);  na lenda de DJOLIBA, o rio Níger (2); confundido com um lagarto por Aminata (3); no primeiro bogolanfini da menina (4); na marionete chamada Senhor Bama que pertencia ao velho Kafará (5).
Tradicionalmente associado ao mundo aquático, o crocodilo aparece em muitas lendas africanas. No Brasil, temos o jacaré. Os alunos conhecem a lenda indígena“O menino e o jacaré”, recontada e ilustrada por Maté (editora Brinque-Book, 2003)? Já viram um jacaré de verdade? Sabem qual é a diferença entre um crocodilo e um jacaré? 

4ª CHAVE: os signos do BOGOLAN

Para as mulheres do povo BAMANA, os signos do BOGOLAN servem para contar suas histórias.
No final do livro, os alunos vão encontrar uma lista com o significado de alguns signos tradicionais. 

Primeira proposta: 
Cada aluno pode tentar criar uma história a partir destes signos, a maneira de Aminata que 
conta a sua jornada nos desenhos do primeiro bogolanfini (p. 32-33). 
Segunda proposta:
Encontrar e decodificar os signos presentes na ilustração que abre o capítulo “O segredo das mulheres” (p.30-31) 


5ª CHAVE: o ciclo da vida


A ilustração do capítulo final retoma os motivos da ilustração da capa, como as sementes do algodão maduro. A irmãzinha aparece então como uma sementinha preciosa de vida a ser cuidada e protegida, enrolada no  bogolanfini  decorado por Aminata e Nakuntê, poderoso símbolo dos valores culturais do povo Bamana. 

terça-feira, 25 de agosto de 2015

EM LORENA, CIRANDA DA LEITURA NO COLÉGIO PATROCÍNIO

Este ano, mais uma vez a convite da coordenadora pedagógica Petreya, os alunos da primeira à quinta série leram meus livros durante as férias e esta semana, num bate-papo informal, pude conferir os bons  resultados da ciranda da leitura.




Com os alunos da 4ª série e a professora ENIR, muitas perguntas sobre a savana e uma encenação improvisada e muito divertida do conto africano "A lebre, o rinoceronte e o hipopótamo", a partir dos meus CONTOS DO BAOBÁ.  










Com os alunos da 5ª série e a professora VÂNIA, uma conversa animada sobre a arte do Bogolan e a vida numa aldeia Bamana tradicional a partir da história de AMINATA, A TAGARELA.    









Com os alunos da 3ª série e a professora VERA LUCIA, o assunto foi um misterioso animal da savana africana que os alunos descobriram em GALINHOLA E O MONSTRO ESCAMOSO.

O painel com os lindos desenhos da turma:





Com os alunos da 2ª série e a professora AGNÉA, o bate-papo foi sobre as fases da lua e os animais que aparecem em ...E A LUA SUMIU, uma história do Milton Célio de Oliveira que tive o prazer de ilustrar.





CADÊ O CAPITÃO SARDINHA? foi o livro escolhido pela
professora RAFAELA para a turminha criativa da primeira série. Cada criança brincou de desenhar o que estava escondido atrás da porta ou da cortina, guardado dentro da geladeira ou do baú.


Fiquei muito feliz com a calorosa acolhida no Colégio Patrocínio e sobretudo pude constatar o vivo interesse que estes livros conseguiram despertar nos pequenos leitores. Saí de lá com o coração leve e a sensação de missão cumprida...  

quarta-feira, 22 de julho de 2015

No começo do ano saiu Aminata, a tagarela, pelo selo Escarlate da editora Brinque-Book. Este novo projeto é mais um caso de amor com a arte africana. Falar em “arte africana” é sempre um tanto redutor, uma vez que a diversidade artística e cultural que existe em todo o continente negro é enorme. No entanto, há um fator comum a muitos povos africanos: sua arte procura, muito mais do que fazer um retrato fiel da realidade, expressar ideias, conceitos e valores culturais.


Aminata e a arte du BOGOLAN


As crianças sempre me perguntam: “de onde vêm suas ideias para escrever?” A resposta não é fácil, nem muito clara. Geralmente tudo começa com um pequeno detalhe que chama a minha atenção. Pode ser uma palavra, uma imagem, um som, um sabor... É como um estímulo que desencadeia uma “inquietação criativa” (mais ou menos consciente) que pode durar meses ou anos até resultar num livro. No caso de Aminata, a tagarela tudo começou muitos anos atrás, na França, quando vi um tecido muito rústico nas paredes da minha irmã que acabava de voltar da África. Por ser inteiramente feito à mão, as bordas do pano eram irregulares, com grossos fios de algodão e o tingimento escuro tinha um colorido muito peculiar. Quando a minha irmã disse com orgulho: “é um BOGOLAN verdadeiro” gostei da musicalidade da palavra e tentei pesquisar a respeito. Como aquilo aconteceu há mais de duas décadas (no século passado, quando ainda eu nem tinha um computador...!), não deu para descobrir muita coisa, mas a palavra BOGOLAN ficou armazenada em alguma gavetinha no fundo da minha mente. Os anos se passaram e um belo dia, enquanto eu estava fazendo uma pesquisa sobre arte africana, a palavra BOGOLAN surgiu novamente. Desta vez, a internet me possibilitou pesquisar tanto em sites africanos de língua francesa, já que o BOGOLAN é uma tradição da África Ocidental (a antiga AOF ou “Afrique Occidentale Française”, uma federação de oito países colonizados pela França de 1895 a 1958), quanto em sites de museus ocidentais, como o norte-americano SMITHSONIAN onde o vocábulo BOGOLAN (que em Bamanankan, a língua do povo Bamana, significa “feito com argila”) é traduzido como MUDCLOTH. 



BAMA, o crocodilo
Duas coisas na arte do BOGOLAN me interessaram: a fabricação em si e o simbolismo cultural. O processo de fabricação mistura conhecimentos tradicionais de botânica e de química e é fruto de uma engenhosa utilização dos recursos oferecidos pelo meio ambiente (no caso, são os óxidos de ferro presentes na lama do rio Níger que reagem ao contato do tecido previamente tingido com ngalama, uma planta medicinal que tem propriedades fixativas). Velhos e jovens, homens e mulheres, todos participam na confecção de um BOGOLANFINI (tecido tradicional do povo Bamana feito com a técnica do BOGOLAN). As mulheres cuidam de colher e fiar o algodão e os homens de tecer. São as mulheres mais experientes, verdadeiras artistas, que pintam o tecido com um repertório de desenhos que mais parece uma linguagem secreta. Alguns desses pequenos signos remetem à vida cotidiana das mulheres como “os dentes do marido ciumento”e “o travesseiro da moura” (símbolo da mulher rica que não precisa trabalhar), outros a crenças tradicionais como “o crocodilo” (considerado o gênio protetor da aldeia), ou até registram eventos históricos como “o pescoço de Koumi Diosse”, um desenho criado para homenagear um chefe que lutou contra a colonização francesa no final do século XIX, famoso pelo pescoço comprido.

travesseiro de moura
Para lutar contra o preconceito que ainda assola o Brasil, país estigmatizado por séculos de escravagismo, é preciso redescobrir e valorizar as raízes indígenas e africanas da nossa cultura. Falar de arte pode ser uma boa maneira de abordar o assunto de forma mais leve e positiva. Como professora de arte, pude constatar o quanto os alunos se encantavam ao descobrir a arte africana. Foi dessa experiência que surgiu a ideia de contar às crianças brasileiras a história de Aminata, uma menina com seus conflitos e suas esperanças, que busca (e encontra) o seu lugar no mundo graças à arte, a única linguagem capaz de tocar o coração e a mente de todos os seres humanos.






domingo, 9 de novembro de 2014


NOVEMBRO, MÊS DA CONSCIÊNCIA NEGRA

Link para uma entrevista minha sobre o tema a convite da Brinque-Book:
http://www.brinquebook.com.br/blog/reflexao-sobre-a-questao-das-diferencas-de-uma-forma-bem-humorada/


A África, um dos meus temas favoritos:






quarta-feira, 8 de outubro de 2014

MUITO BOM saber que os alunos de LORENA estão curtindo meus livros...

A convite da coordenadora pedagógica Petreya C. Chaim, visita à turminha do Pré do Colégio Patrocínio de São José que, com a professora Amélia, adotou e leu ...E A LUA SUMIU (edit. Brinque-Book) e O ENIGMA DA LAGOA (edit. Brinque-Book). Ambos os livros escritos pelo Milton Célio de Oliveira e ilustrados por mim.

O MENINO E O JACARÉ (edit. Brinque-Book)
Contação de história com Flaviane Barbosa
Projeto Roda Literária, Escola Municipal Maria Aparecida Guedes,
4º ano B, turma da professora Vanilda.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

UM POUCO DA MINHA TRAJETÓRIA

Decidi falar um pouco da minha trajetória pessoal para atender aos trabalhos de pesquisa escolar e tentar responder à pergunta que mais ouvi nas minhas andanças pelas escolas da região: "Como, quando e por que você decidiu ser uma escritora?"

Maté é o pseudônimo de Marie-Thérèse Kowalczyk. Sou artista plástica, ilustradora e autora de livros infantis. Nasci na França em 1959. Neta de imigrantes poloneses, passei a infância e a adolescência na região de Saint-Etienne, uma bacia hulheira onde a extração do carvão mineral se dava em meio a antigas áreas agrícolas. A preocupação com o meio ambiente (um tema recorrente no meu trabalho) certamente nasceu ali, na observação de uma Natureza que lutava para seguir seus ritmos sazonais, sufocada pelo barulho e a poluição da indústria carvoeira.

Após uma rápida passagem pela Universidade Claude Bernard em Lyon no final dos anos setenta, quando sonhava em me tornar paleontóloga, eu vim para o Brasil onde acabei fixando-me. Descobri uma fauna e uma flora exuberantes e uma rica cultura de miscigenação. Comecei a pintar. Autodidata, retratava em meus quadros índios em convívio idílico com bichos e plantas. Como escreveu Flávio de Aquino em novembro de 1983, na revista Manchete: “Maté (...) teve, como tantos europeus, o estalo do índio brasileiro (...). Tinha aquelas idéias tipo “o bom selvagem” de J.J. Rousseau.” 

Entre 1983 e 2002, atuei como artista plástica, expondo em várias capitais brasileiras como Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro. Aos poucos, fui trocando a tinta acrílica pela aquarela. Como aquarelista, ganhei vários prêmios em salões, sendo o mais importante o Primeiro Prêmio de Artes Plásticas do Mapa Cultural Paulista em 1999. 

Quando cheguei em Lorena, cidade onde moro até hoje, encontrei muito apoio na FATEA, na pessoa da artista plástica Irmã Heleninha, na época coordenadora do Curso de Educação Artística. Mais tarde tive o prazer de conhecer a então diretora da FATEA, Irmã Olga de Sá,  que em 1996 escreveu: “Longa pesquisa artística e séria disciplina de trabalho levaram Maté à extrema economia da riqueza lúdica. O jogo de signos ligados pelo rigor geométrico da composição mergulha o espectador na complexidade de seus próprios arquétipos, levando-o às raízes de sua terra existencial”.   

Buscando aprimorar minha formação profissional, acabei me matriculando na FATEA em 1998, tornando-me Bacharel em Desenho Industrial em 2001 e Especialista em Teoria e Prática das Artes Contemporâneas em 2003. A partir de 2004, ingressei no corpo docente da mesma faculdade, passando a lecionar para os alunos dos Cursos de Educação Artística, Desenho Industrial, Publicidade e Propaganda, Letras e Pedagogia.

Paralelamente, comecei a trabalhar como ilustradora até que em 2002, tive a oportunidade de ilustrar “Kabá Darebu” do autor indígena Daniel Munduruku. Animada com o resultado, lancei em 2003 “O menino e o jacaré”, fruto da minha pesquisa para o trabalho de conclusão de curso em Desenho Industrial. Desde então, tenho produzido regularmente para o público infantil. Até esta data, já publiquei 6 livros como ilustradora e 9 como autora e ilustradora, com vários títulos merecendo o selo “Altamente Recomendável” da Fundação Nacional do Livro Infanto  Juvenil  e circulando nas bibliotecas escolares de todo o país. 

Uma das experiências mais emocionantes que eu vivi até agora, foi o convite para fazer uma oficina de desenho com as mulheres e crianças A´uwê-Xavante das aldeias Abelhinha e Santa Glória, no Território Indígena Sangradouro, no Mato Grosso, em 2005. Foi um momento precioso e esclarecedor para mim que sou apaixonada pelas culturas indígenas e africanas. 

Desde 2012 venho me dedicando exclusivamente à profissão de autora e ilustradora para poder participar de salões, oficinas e encontros com os pequenos leitores, em escolas públicas e particulares. Hoje uso tanto a imagem quanto a palavra para contar minhas histórias. Histórias fantásticas de povos esquecidos e animais ameaçados, mas também histórias engraçadas com muito afeto e imaginação. 


Livros que eu escrevi e ilustrei.


Livros que eu ilustrei.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

BICHOLETRA no 15° Salão da FNLIJ

O lançamento no Rio foi um barato! Como no ano passado, pude contar com o apoio logístico da Luciane e do Lucas, da editora Globo, dois entusiastas da literatura infantil. As crianças da plateia entenderam rapidinho a brincadeira e logo, logo, estavam "bicholetrando" comigo. Uma mãe me contou que ia brincar de "bicholetra" junto com a filha. Legal, né?